Nos anos trinta do século XX, Mãe Aninha tomou um vapor para o Rio, a capital, onde obteve o decreto 1212, de Getúlio Vargas, autorizando a prática de sua religião afro-brasileira, conhecida por candomblé, perseguidíssima pela autoridade policial instigada pelos púlpitos e preconceitos. Incontáveis líderes afrodescendentes, sacerdotes e sacerdotisas fecundaram ainda mais o solo desta Bahia com o sangue tombado de quem não tem medo da eternidade, a causa, sem a qual não somos nada mais que coisa nenhuma. A Senhora Dona Eugênia Anna dos Santos, a Donana, trazia dentro do peito a chama livre e vanguardeira do fogo sagrado de quem sabe o que quer.

Nascida no final da década de 60 do século XIX, era filha de escravos libertos gruncis: Anió e Azambrió, que lhe deixaram divindades então cultuadas no alto Voga, na África, e, em nossos dias, no Axé Opô Afonjá. Mesmo assim, a Donana fora iniciada pela lendária dona Marcelina de Xangô, Obá Tossi, filha da Iá Nassô, a sacerdotisa iorubá fundadora do Ilê Axé Iá Nassô Oká Bamboxê Obiticô, o atual terreiro da Casa Branca do Engenho Velho. Desde os primórdios de sua história a futura fundadora do Ilê Axé Opô Afonjá revolucionara a tradição. Aninha de Xangô recebeu o nome de Obá Bií, que quer dizer: Xangô nasceu aqui, nesta terra.

Qual seria a terra de Xangô, o Senhor do Axé Opô Afonjá, profetizada pelo orucó - o nome sagrado - que a neófita havia trazido?

A ''oikumene'': toda a terra que se habita.

É o Tudo, o Absoluto, além de heranças consangüíneas e fronteiras, lugar onde a Justiça impera e não faz acordos capciosos, posto de temperança e equânimidade. Mãe Aninha, a exemplo de Teresa de Ávila e outras fundadoras de comunidades religiosas, foi uma mulher sedenta de conhecimento e justiça, plena de amor, sem medo de dar a vida pela crença: a via direta para o eu verdadeiro.

Apoiada por velhas tias - a exemplo de Maria da Purificação Lopes, Mãe Bada, Badá Olufã Deí (que viria a ser sua sucessora imediata no Opô Afonjá, depois de sua morte, cujas filhas vivas, hoje em dia, são Mãe Xagui, com terreiro no Pero Vaz, Liberdade, com 66 anos de iniciada e Mãe Honorina de Ossain, que vive no Opô Afonjá, com 63 de vida religiosa); por um grupo de irmãs de Axé e pelo tio Joaquim, o Obá Sanhá, fundou a própria comunidade-terreiro. Inicialmente em um sítio chamado Camarão, depois na Ladeira da Praça, no centro de Salvador (local de iniciação de Mãe Senhora de Oxum, que viria a ser a terceira sucessora), transferida, em 1910, para São Gonçalo do Retiro, nome pelo qual é conhecido o Axé de Afonjá, com muito mais dos 93 anos de vida litúrgica reconhecidos por alguns.

Era uma representante das chamadas "mulheres do partido alto": negras e mestiças de mais de 45 anos bem-sucedidas financeiramente, responsáveis por uma infinidade de filhos espirituais e biológicos, parentes e aderentes, agregados e simpatizantes.

Sabendo que somos mortais, auxiliada pelas idéias do lendário Martiniano Eliseu do Bonfim, fundou a Sociedade Cruz Santa do Axé de Opô Afonjá, criando o corpo de Obás: os 12 ministros de Xangô responsáveis pela continuidade da sua causa, introduzindo o posto de Kolagba: a mulher que representa a Mãe de Xangô, em importante festa litúrgica, outrora ocupado por Ebame Matilde e Mãe Stella, hoje por Ebame Haidée de Oxum.

Donana mantivera amizade com sacerdotes católicos - com os quais trocava idéias (fora a prioresa da Irmandade da Boa Morte, ainda na Barroquinha), falava francês, escrevia muito bem, gostava de música erudita e tinha um sonho traduzido pela frase memorável: "Quero ver os meus descendentes espirituais usando anéis de doutores aos pés de Xangô." Icú, a morte, levou Mãe Aninha para o Orun, lugar de eterno recomeço, no dia 3 de janeiro de 1938, há 65 anos destes escritos.

A história demonstra que seu desejo se tornara palpável. Decerto sorri, feliz, ao ver um seu filho, ministro de Xangô confirmado em outubro de 1998, ocupando a pasta de ministro de Estado da Cultura, o artista Gilberto Gil, ele mesmo um filho de Xangô e um Alaiandê, o grande músico; enleva-se ao contemplar seu Obá Aré, Antonio Olinto, em sua cadeira imortal na Academia Brasileira de Letras; ao ver sua sucessora Mãe Stella cada vez mais levando a bandeira de Xangô para o mundo e tantos outros e outras dentre muitos e muitas: Mestre Didi, Antonio Albérico de Santana, Muniz Sodré, Marco Aurélio Luz, Dorival Caymmi, Ildásio Tavares, Vivaldo da Costa Lima, Sinval da Costa Lima, Júlio Braga, Balbino de Xangô, Zora Seljan, e para que a verdade seja dita, eu mesma, sua Agbeni, esta filha de Iansã e Ogum briguenta e apaixonada, cria de três Iás memoráveis e por mim muito amadas: a falecida Eunice de Xangô do Engenho Velho - que me acompanhou nos primeiros passos nesta religião fascinante, de Xagui, de Oxoguiã, que fez de mim gente-sobrevivente, e de Stella de Oxóssi, que me consagrou Agbeni Xangô: aquela que divide a mesma causa com o Senhor da Justiça. Doze é o número de Xangô. Não é a toa que o decreto histórico de Getúlio e Mãe Aninha confirma este número duas vezes: 1212, cuja soma é seis, que também pertence ao Senhor do Fogo, inseparável da Senhora dos ventos e tempestades.

*Cléo Martins é advogada e agbeni do Ilê Axé Opô Afonjá

 

FORÇA EM SUA MÃOS

Tradição deve ser resgatada pelos jovens como forma de preservação da memória iorubá
 

Reportagem do Correio da Bahia, de 14 de abril de 2003

 

"É preciso retomar a importância dos obás de Xangô do Opô Afonjá. O posto, sim, já teve mais prestígio e hoje tem bem menos evidência". O recado é da escritora e advogada Cleo Martins, Agbeni Xangô (a que acompanha Xangô) do terreiro de São Gonçalo. Como legítima filha de Iansã, Cleo não se intimida ao expor claramente suas opiniões e afirma que a época dos grandes obás deu uma parada. "A freqüência já não é mais cativa. É preciso resgatar também essa maior participação", acredita. A agbeni informa ainda que entre as mudanças percebidas está a própria "feitura" do obá de Xangô, antes mais sofisticada e hoje equiparada com a de um ogã. Como uma alternativa de retorno ao debate, Cleo aponta a realização do Alaiandê Xirê, Festival de Sacerdotes Músicos, no segundo semestre deste ano. Durante o evento, ocorrerá um seminário com o tema Xangô na África após a diáspora: "É fundamental retomarmos uma discussão sobre o corpo de obás, elemento fundamental para o culto de Xangô", ressalta.

Chefe de um poder ao mesmo tempo espiritual e terreno, mãe Stella é bastante polida em seu comentário. Para ela, as funções dos obás são as mesmas e, portanto, a sua conseqüente importância. No livro, Meu tempo é agora, escrito em 1993, a ialorixá reafirma a liderança iniciada por mãe Aninha ao tentar fortalecer o candomblé através de sua importância social, educacional, cultural e religiosa. É na época de mãe Stella que a sociedade civil do Afonjá, com o apoio dos obás, vai implementar inúmeros projetos como o Museu Ilé Olun Lailai, a biblioteca, oficinas, grupos de estudo e uma escolinha que atende mais de 300 crianças.

"Os mais novos têm uma nova força nas mãos. Hoje, eles dão continuidade a outras necessidades, administrando o terreiro, tombando e cuidando para que a roça não seja invadida", opina o otun obá Aré Ildásio Tavares, ele próprio confessando não ter a assídua freqüência dos primeiros anos. "Quando eu era mais moço vivia lá. Mas, ainda assim, não falto às cerimônias fundamentais e estou sempre presente nas decisões", acrescenta.

Vivaldo Costa Lima afirma que percebe que a atual mãe-de-santo tem tentado revigorar o grupo dos obás indicando, principalmente, pessoas inteiradas na religião dos orixás. "Por isso mesmo capazes de dar ao terreiro o apoio e o prestígio que nada têm a ver com qualquer condescendência de caráter publicitário e de promoção pessoal", explicita. Quanto aos estudos sobre o tema, Lima acredita que é hora de abandonar um pouco a abordagem histórica e atualizar o debate. Em agosto de 1996, Vivaldo coordenou a conferência Os ministros de Sangó, onde se discutiu, entre outras coisas, sobre o apoio civil dado pelo grupo dos obás à comunidade do terreiro.

Já no início, mãe Aninha pressentia que era preciso acompanhar o progresso com cuidado para que este não representasse a perda das raízes do candomblé. Seu desejo sempre foi o de permitir o acesso a melhores condições de emprego, moradia e educação para seus filhos, de tal maneira que não fosse necessário perder a herança africana. É célebre a frase: "Quero ver meus filhos com anel no dedo (de formatura) e aos pés de Xangô", dita por Aninha, ao perceber o crescente alcance da religião afro-brasileira.

Seu papel de divulgadora e fonte matriz do candomblé na Bahia vai em outras direções. De acordo com alguns pesquisadores, foi ela quem praticamente inventou as baianas como símbolo de baianidade ao criar uma coleção de bonecas vestidas como orixás e enviada, posteriormente, para o Museu Nacional de Lisboa. Aninha também teria cunhado a expressão "Roma africana" para designar Salvador, termo que apareceria pela primeira vez em livro de Edson Carneiro. Provavelmente a idéia era comparar Salvador, centro do candomblé, à cidade de Roma, o centro do catolicismo. A antropóloga Ruth Landes, comentando Carneiro, traduz o termo para "nigro Roma" em A cidade das mulheres, mais tarde retraduzida para o português como a antológica "Roma negra".

"O candomblé, da maneira como se organiza e se projetava na Bahia, representava inegavelmente um foco de resistência contra-aculturativa da população negra e de sua cultura face à sociedade branca", prega o pesquisador Júlio Braga, no livro Na gamela do feitiço - Repressão e resistência nos candomblés da Bahia. Ele relembra que é com Nina Rodrigues, e a forte consultoria de Martiniano, que as religiões africanas passam a ser reconhecidas como antigas religiões de Estado e não apenas como "feitiçaria". O trabalho de terreiros, sobretudo do Afonjá, em busca dessas raízes foi essencial para essa mudança.

A abordagem jornalística também passa por uma profunda mudança nos anos 30, a partir de uma série de reportagens socioculturais organizadas por Edson Carneiro e publicadas no Estado da Bahia. "Acontece aí uma nova postura, já que notícias do candomblé, antes, só apareciam na página policial", destaca Braga. O fato é que, em quase sete décadas, a história dos obás na Bahia representa a história da afirmação e resgate cultural de um povo que esteve às raias da dizimação. O tamanho do estrago pode ser notado hoje na própria Nigéria pós-imperialista. O país convive com a eterna rivalidade entre o sul, rico e sob influência cristã, dominado pela etnia iorubá, e o norte, muçulmano, de maioria hauçá. É a forçosa coexistência de 250 etnias diferentes num mesmo território a principal responsável pelas constantes tensões. Hoje, o islamismo e o cristianismo respondem juntos por 90% da opção religiosa da Nigéria. Para muitos contemporâneos da África, histórias de seus ancestrais, como a dos obás, há tempos está perdida.

Reportagem do Correio da Bahia

 

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